Brasil tem aproximadamente 2,6 milhões de poços e só uma fração está integrada às bases nacionais
- SACRE

- 28 de fev.
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Estimativa oficial indica retirada expressiva de água subterrânea e expõe desafios na gestão e no monitoramento do uso
Isabela Batistella

Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH) indicam que milhões de poços captam águas subterrâneas no Brasil para usos diversos. As estimativas mais recentes apontam a existência de cerca de 2,6 milhões de captações. Parte delas está cadastrada em bases estaduais ou federais, mas nem todas aparecem de forma integrada no Cadastro Nacional de Usuários de Recursos Hídricos (CNARH), que reúne informações compartilhadas entre os estados e o governo federal. A ausência desses dados consolidados revela um desafio central para a gestão. Para estimar quanto da água subterrânea já está comprometida, é preciso saber quanto cada poço retira. Hoje, ainda há limitações importantes no monitoramento dessas captações.
“A recarga de água nos aquíferos é o principal parâmetro para definir limites sustentáveis de extração”, diz Carolina Santos, pesquisadora do Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes. “No planejamento, ela orienta a estimativa da disponibilidade hídrica, a alocação de outorgas e a identificação de áreas estratégicas para proteção e recarga natural ou manejada, garantindo que o nível da água se mantenha estável no longo prazo”.
A disponibilidade total de água subterrânea no Brasil é estimada em 13.205 m³/s (metros cúbicos por segundo), segundo dados públicos. A distribuição, porém, não é uniforme. O uso isolado de um poço pode parecer pequeno, mas seus efeitos se somam em regiões onde diversos usuários bombeiam água de um mesmo aquífero. Poços não são sinônimo de água infinita: a água captada vem de aquíferos, formações geológicas que armazenam água acumulada ao longo de anos. O limite de exploração depende da recarga — processo natural de reposição por infiltração da chuva ou pela interação com rios — que pode variar significativamente entre diferentes sistemas aquíferos.
Quando a exploração do recurso ultrapassa a recarga, o sistema responde de acordo. “Ocorre rebaixamento progressivo do nível d’água, redução da vazão dos poços, aumento dos custos de bombeamento e maior risco de degradação da qualidade da água”, diz Santos. “Em médio e longo prazo, pode haver perda de armazenamento do aquífero e comprometimento da segurança hídrica”.
O cenário não é hipotético. Um artigo elaborado por pesquisadores do SACRE e apresentado em 2024 no Congresso Brasileiro de Águas Subterrâneas analisou o Sistema Aquífero Bauru na cidade de Bauru (SP). O estudo indica rebaixamentos de até 55 metros no período de 20 anos nas áreas com maior concentração de poços. Na cidade, são mais de 500 poços tubulares privados que operam como complemento ao abastecimento público.
Simulações de bombeamento contínuo ao longo de 40 anos apontam a possibilidade de rebaixamentos ainda maiores e alterações na interação entre rios e aquíferos. Ao mesmo tempo, estudos indicam que sistemas aquíferos renováveis como o Bauru podem ter papel relevante na segurança hídrica futura, especialmente em contextos de pressão sobre outras fontes.
O caso evidencia que a decisão individual de perfurar e bombear interfere no equilíbrio coletivo. Extrações intensas podem reduzir vazões de rios e alterar a dinâmica entre águas superficiais e subterrâneas. Por outro lado, os poços também cumprem um papel importante no abastecimento, ao ampliar a segurança hídrica e reduzir a pressão sobre outras fontes de água. A gestão do recurso, portanto, envolve equilibrar esses efeitos, conciliando os riscos associados à exploração com os benefícios que ela oferece ao sistema como um todo.
“O projeto tem demonstrado que a integração entre monitoramento, modelagem, práticas de recarga manejada e soluções baseadas na natureza permite aumentar a resiliência hídrica”, afirma Santos. “Também evidencia a importância do planejamento territorial, da gestão integrada entre águas superficiais e subterrâneas e da participação dos usuários para garantir o uso sustentável do recurso”.
Para Fernando Rörig, também pesquisador do SACRE, um dos caminhos passa por aproximar os usuários privados do processo de gestão. “Hoje, muitos usuários de poços não são enxergados nem engajados nas decisões sobre o uso da água, embora esse número continue crescendo no país”, diz. Segundo ele, integrar esses atores aos órgãos responsáveis — como as companhias de saneamento e os gestores de recursos hídricos — pode fortalecer o monitoramento e tornar o planejamento mais realista. “Já existe base científica para incorporar modelagem e dados no processo de autorização e acompanhamento de poços. O desafio agora é fazer com que esse conhecimento passe a orientar efetivamente as decisões”, alerta Rörig.
Dentro do SACRE, a análise de poços não se limita a aspectos técnicos isolados. O foco recai sobre governança, informação e tomada de decisão. Sem dados sobre quantidade, vazão e localização das captações, o planejamento perde precisão e o risco se espalha no subsolo, onde os impactos não aparecem de imediato, mas acumulam efeitos ao longo do tempo.




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