Pesquisa premiada internacionalmente aborda legado da contaminação por nitrato
- SACRE

- 3 de jun.
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Estudo indica que o cenário atual e sua persistência vão além dos desafios atuais
Isabela Batistella

Pesquisa do Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes foi reconhecida internacionalmente no Dia Mundial da Água 2026 (World Water Day 2026), evento promovido pelo Water Institute, da Universidade de Waterloo. Fernanda Barreto, pesquisadora do projeto, recebeu o People’s Choice Poster Award, prêmio de pôster científico escolhido pelos pares presentes no evento, com trabalho sobre o chamado ‘legado de nitrogênio’, que investiga por que a contaminação por nitrato, poluente derivado do nitrogênio e comum no esgoto doméstico, persiste mesmo após a ampliação da rede de esgoto.
O trabalho reconstrói mais de um século de contaminação por nitrogênio, entre 1910 e 2025, para entender quanto desse material entrou no sistema ao longo do tempo e onde permanece hoje. Com foco de análise no Sistema Aquífero Bauru, o estudo considera o crescimento urbano, o uso antigo de fossas sépticas e a expansão da rede de esgoto para mostrar como essa carga se acumulou no subsolo. Os resultados apontam que cerca de 73% de todo o nitrogênio ainda permanece armazenado na área estudada. A maior parte está retida na camada de solo acima do lençol freático, enquanto outra parcela já se encontra dissolvida no aquífero.
“Acredito que o engajamento do público tenha sido motivado pela novidade no assunto”, diz Barreto. “Os primeiros números desse modelo mostram que o solo é responsável por abrigar a maior parte da contaminação, fazendo com que, mesmo se todos os vazamentos fossem resolvidos na cidade, ainda haveria contaminação ocorrendo no aquífero por vários anos”.
Os resultados indicam que o problema não se limita aos vazamentos atuais da infraestrutura sanitária. Há também um estoque acumulado por décadas no solo, principalmente do período em que o uso de fossas sépticas era predominante. Esse reservatório subterrâneo libera nitrogênio lentamente ao longo do tempo e mantém a contaminação ativa mesmo após melhorias no saneamento.
Segundo o modelo, mesmo em um cenário de vazamento zero, a concentração de nitrato nas águas subterrâneas ainda deve atingir seu pico em 2033. A recuperação completa pode levar até 100 anos, com projeções que variam entre 51 e 186 anos a depender das condições do sistema. Para a pesquisadora, essa noção de contaminação acumulada muda a forma como o problema costuma ser tratado por gestores públicos.
“Sabemos que a atualização da infraestrutura, modernização dos materiais empregados e tratamento adequado são a maneira com a qual podemos reduzir esses impactos”, reflete. “Porém, são soluções que carecem da observação dessa contaminação de legado, construída por diversos anos de uso e ocupação do solo”.
Além do armazenamento prolongado no solo, o trabalho também identificou o papel estratégico das zonas ripárias — áreas próximas aos cursos d’água — como filtros naturais capazes de remover parte do nitrogênio antes que ele alcance o aquífero. Essas regiões funcionam como uma das poucas barreiras naturais ativas no processo de descontaminação.
Barreto explica que esse mecanismo ajuda a compreender por que políticas de curto prazo costumam ser insuficientes para a segurança hídrica urbana. Mesmo com investimentos imediatos em saneamento, a resposta do sistema subterrâneo ocorre em outra escala de tempo, que exige planejamento de longo prazo.




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