Projeto ligado ao SACRE propõe modelo para antecipar respostas à escassez
- SACRE

- 3 de jun.
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Iniciativa busca criar protocolos para crises hídricas após episódios recentes de rodízio
Isabela Batistella

O atual cenário de estiagens prolongadas e crises de abastecimento no interior paulista resulta em crescente pressão sobre rios e aquíferos. Iniciativas científicas estão em busca de sustentabilidade para os sistemas hídricos urbanos. Uma delas é um novo projeto, ligado ao Projeto SACRE | Soluções Integradas de Águas para Cidades Resilientes, que investigará estratégias para mudar a forma como cidades respondem a crises hídricas. Chamada PLACO, a iniciativa é conduzida pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), com execução da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE). A proposta irá desenvolver planos de ação para lidar com situações de crise hídrica em municípios da bacia Tietê-Jacaré, incluindo Bauru (SP). O foco está em prevenção, definição de critérios técnicos para medidas emergenciais e apoio à tomada de decisão durante períodos de escassez.
A avaliação dos coordenadores do projeto é de que a crise hídrica não acontece apenas por falta de chuva. A crise surge quando períodos de estiagem se combinam a redes com perdas elevadas na distribuição, baixa capacidade de armazenamento e entraves de gestão. A proposta parte da ideia de que a seca, sozinha, não explica crises de abastecimento.
“A crise hídrica deixa de ser tratada apenas como um evento climático inevitável e passa a envolver as limitações do sistema de abastecimento e da capacidade de gestão dos recursos hídricos”, diz a coordenadora Priscila Ikematsu. Segundo ela, esse entendimento pode facilitar a tomada de decisão. “Em vez de responder somente quando os reservatórios entram em colapso, o poder público deve definir ações de prevenção e planejamento”, afirma.
Nos últimos anos, cidades do interior paulista enfrentaram episódios recorrentes de restrição no abastecimento. Em Bauru, estiagens recentes levaram à adoção de rodízios prolongados, uso de caminhões-pipa e aumento da exploração de poços subterrâneos para compensar a pressão sobre o sistema. Os pesquisadores apontam que respostas emergenciais ainda predominam em muitos municípios, mesmo diante do aumento da frequência e intensidade das secas.
A demanda por água na região dobrou entre 2017 e 2023, assim como a pressão sobre mananciais superficiais e subterrâneos. Em períodos críticos, a vazão do Rio Batalha, uma das principais fontes de abastecimento de Bauru, chegou a registrar quedas superiores a 50%.
O projeto foi aprovado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica Tietê-Jacaré e terá Bauru como caso piloto para a elaboração de um Plano Detalhado de Contingência contra estiagens. “A ideia é estender o que aprendemos com o SACRE para outras cidades”, diz o coordenador Ricardo Hirata. Para o pesquisador, as experiências do SACRE demonstram que o planejamento hídrico precisa antecipar cenários e definir critérios técnicos antes que o abastecimento entre em crise.
Ao longo de 12 meses, o trabalho envolverá 34 municípios da região administrativa que reúne cidades da bacia Tietê-Jacaré e concentra cerca de 1,6 milhão de habitantes. O projeto inclui a produção de mapas de vulnerabilidade à crise hídrica, criação de indicadores de risco e treinamento de técnicos municipais, além do desenvolvimento de modelos que poderão ser usados por outras cidades.
Rodízio no centro da discussão
Uma das frentes mais sensíveis do projeto envolve decisões relacionadas ao rodízio de água. O PLACO inclui a criação de um Sistema de Suporte à Decisão para auxiliar gestores públicos em situações de escassez. A ferramenta reunirá dados sobre chuva, níveis de reservatórios, vazão do Rio Batalha, consumo urbano e operação da rede de abastecimento para indicar cenários de risco e apoiar medidas emergenciais. “O foco não é automatizar a decisão de decretar ou não o rodízio de água, mas qualificar e antecipar essa decisão com base em evidências”, diz o coordenador Carlos Gamba.
O pesquisador explica que o sistema pretende integrar de forma contínua informações sobre reservatórios, chuva, consumo e operação da rede para identificar tendências de agravamento antes que o abastecimento entre em situação crítica. Na prática, o projeto busca substituir respostas emergenciais por ações planejadas, baseadas em monitoramento contínuo e projeções de cenários de escassez.
“O rodízio deixa de ser uma medida quase automática em momentos de escassez e passa a ser uma das possíveis estratégias dentro de um conjunto mais amplo de ações”, detalha. Entre essas alternativas está a integração entre sistemas de abastecimento. As análises preliminares do projeto indicam que muitos municípios ainda operam sem critérios técnicos claros para decisões relacionadas ao abastecimento.
Crise hídrica também envolve urbanização
Além da seca, o projeto irá investigar fatores estruturais que ampliam a vulnerabilidade das cidades durante períodos de estiagem. A análise deverá considerar crescimento urbano desordenado, impermeabilização do solo, poluição de mananciais e aumento da demanda por água, já que a forma como as cidades crescem pode agravar os impactos da escassez hídrica.
Segundo o doutorando do SACRE Fernando Rörig, o avanço urbano altera a capacidade natural de produção e infiltração da água nas bacias hidrográficas. “A forma como o território é ocupado e urbanizado pode comprometer os sistemas produtores de água”, alerta. Entre os fatores da urbanização estão a poluição de fontes, solo impermeável e assoreamento de rios e reservatórios.
O PLACO também pretende simular como mudanças climáticas e aumento da demanda podem afetar o abastecimento até 2050. Os dados serão organizados em mapas e bases de dados sobre clima, urbanização e abastecimento. A expectativa é que os resultados ajudem as cidades a agir antes que a estiagem afete o abastecimento.
O projeto também envolve estudos específicos sobre a bacia do Rio Batalha, responsável por parte do abastecimento de Bauru. O trabalho inclui análises sobre disponibilidade de água e a relação entre rios e aquíferos. Além disso, reconhece a dependência crescente de aquíferos na região e os limites associados à exploração dessas reservas em cenários de lenta reposição natural da água subterrânea.
Comunicação entra como parte da gestão
Além de infraestrutura e operação, o PLACO trata a comunicação pública como elemento central da gestão de crises hídricas. O projeto incorpora estratégias para informar moradores, gestores e setores ligados ao abastecimento, além da análise da percepção social sobre estiagens e rodízios.
Segundo Ikematsu, a resposta à escassez depende do envolvimento social. “É fundamental que a sociedade compreenda a dimensão do problema, os motivos das restrições e participe das soluções”, ressalta. A pesquisadora também destaca que medidas de restrição funcionam melhor quando a população entende por que elas foram adotadas.
O projeto parte da avaliação de que decisões como rodízio costumam gerar desgaste político, impacto econômico e pressão social. Por isso, além das ferramentas técnicas, o PLACO desenvolverá materiais informativos, entrevistas, ações voltadas à comunicação com moradores e análise da cobertura das mídias locais sobre a crise hídrica.
A expectativa dos pesquisadores é que o modelo desenvolvido em Bauru sirva de referência para outras cidades da bacia Tietê-Jacaré e ajude municípios a substituir respostas improvisadas por estratégias permanentes de prevenção e adaptação. A proposta é usar experiências do SACRE para ajudar cidades a agir antes que a estiagem vire crise de abastecimento.




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