Combinação de estruturas verdes amplia retenção de água em cidades, aponta SACRE
- SACRE

- 3 de jun.
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Estudo do projeto investigou como soluções baseadas na natureza podem reduzir enchentes em áreas urbanas
Isabela Batistella

As Soluções Baseadas na Natureza (SbN) são técnicas que buscam enfrentar desafios socioambientais ao utilizar processos ecológicos naturais de forma estratégica. Um estudo do Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes analisou soluções para reduzir impactos associados à impermeabilização do solo e às enchentes urbanas. Os resultados indicam que a eficiência dessas técnicas no manejo de águas superficiais urbanas muda de acordo com as condições locais, do ponto da bacia em que são aplicadas até a escala considerada no planejamento urbano.
Desenvolvida na bacia do Córrego Água Comprida, em Bauru (SP), a pesquisa foi liderada pela pesquisadora do SACRE Ana Laura Pascucci. As estratégias analisadas foram jardins de chuva, biovaletas e wetlands construídos — que utilizam processos biológicos para gerir o ciclo da água urbana de forma eficiente. Os jardins de chuva funcionam como pequenos pontos de absorção que infiltram a água localmente e as biovaletas atuam como canais que transportam e filtram poluentes ao longo de vias. Já os wetlands construídos operam como sistemas que imitam pântanos para realizar o tratamento biológico de águas residuais.
Os resultados indicam um efeito de sinergia entre as técnicas exploradas, em que a combinação dessas estruturas aumenta a retenção de água além do resultado obtido por cada solução de forma isolada. “Isso ocorre porque essas estruturas não atuam apenas em sua área de contribuição imediata”, explica Pascucci. “Elas geram um efeito em cadeia nas áreas próximas”. Esse efeito conjunto pode mudar a forma como gestores públicos planejam intervenções. Segundo a pesquisadora, pode ser mais proveitoso investir em uma rede conectada de infraestrutura verde em vez de apenas uma grande obra de infraestrutura cinza isolada.
A pesquisa combinou modelagem hidrológica e processamento automatizado de dados para analisar 330 áreas de drenagem da bacia. O trabalho aponta que a urbanização acelerada e a impermeabilização do solo alteraram o ciclo natural da água nas cidades, ampliando as enchentes e a degradação de córregos.
“Cidades médias brasileiras, como Bauru, cresceram com ocupação intensa e pouco planejamento integrado”, afirma Pascucci. Segundo a pesquisadora, o avanço urbano eliminou áreas naturais de infiltração e aumentou o volume de água que escoa rapidamente pela superfície. O resultado é a sobrecarga de galerias e cursos d’água.
Os resultados também indicam que soluções padronizadas tendem a falhar quando ignoram as características de cada bacia hidrográfica. Enquanto estruturas descentralizadas, como jardins de chuva e bioswales, tiveram papel importante na retenção local da água, wetlands construídas mostraram maior impacto no controle das grandes vazões ao longo do córrego. “É esse olhar específico sobre cada bacia que permite entender a dinâmica da água e escolher a solução mais adequada para cada área”, diz.
Segundo o estudo, um dos principais entraves para ampliar esse tipo de infraestrutura está no próprio desenho das cidades brasileiras. A pesquisa aponta que bairros consolidados e legislações urbanísticas rígidas dificultam a implantação de soluções verdes.
“O desenho padrão de uma calçada hoje, por exemplo, muitas vezes inviabiliza a instalação de um jardim de chuva”, aponta Pascucci. Ela defende a atualização de códigos de obras, planos diretores e parâmetros urbanos para incorporar estratégias de adaptação climática e resiliência hídrica.
A pesquisa também desenvolveu uma ferramenta automatizada para processar grandes volumes de dados espaciais. A ferramenta permitiu automatizar a extração de parâmetros hidrológicos para centenas de áreas de drenagem, reduzindo tempo e custo de modelagem.
Na avaliação da pesquisadora, esse tipo de automação pode aproximar ferramentas técnicas da gestão pública. “Municípios e pesquisadores conseguem extrair dados para modelar bacias hidrográficas em várias escalas em uma fração do tempo que levariam manualmente”, analisa Pascucci.
O trabalho também dialoga com as estratégias integradas do Projeto SACRE para ampliar a resiliência hídrica urbana em cidades como Bauru. Segundo ela, a pesquisa ajuda a conectar o manejo das águas pluviais superficiais à conservação das águas subterrâneas e ao planejamento urbano.
“A base dessa transformação está em propor uma nova forma de analisar a resposta das Soluções Baseadas na Natureza”, diz. “Os modelos hidrológicos permitem enxergar como o sistema reage em diferentes escalas territoriais e sob condições severas de estresse”.




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