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Projeto compara Bauru e Osaka para entender desafios da água

  • Foto do escritor: SACRE
    SACRE
  • 3 de jun.
  • 4 min de leitura

Smart-Água compara bacias para avaliar impactos sobre rios e aquíferos


Isabela Batistella


Imagem ilustrativa (Fonte: Acervo Canva)
Imagem ilustrativa (Fonte: Acervo Canva)

Quando se fala em crise hídrica, a discussão costuma girar em torno de secas, reservatórios vazios e falta de chuva. Smart-Água, nova pesquisa em parceria com a Universidade de Hiroshima, no Japão, conectada ao Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes, ilumina um problema menos visível. A premissa é de que a crise hídrica também envolve saber quem usa a água, como ela circula entre cidades e áreas agrícolas e quais atividades comprometem sua qualidade.

No Brasil, a pesquisa terá como foco a bacia do Rio Batalha, em Bauru (SP), região já investigada pelo SACRE. No Japão, a área de estudo será a bacia do Rio Yamato, em Osaka. A comparação entre as duas bacias permitirá analisar como urbanização, agricultura e mudanças climáticas influenciam a dinâmica dos nutrientes e a qualidade da água em realidades distintas. 

Embora ambas enfrentem desafios relacionados à contaminação por nitrato e à pressão sobre os recursos hídricos, suas características são bastante diferentes: enquanto as áreas de nascente em Osaka permanecem protegidas por extensas regiões florestadas, em Bauru os mananciais convivem com uma ocupação agrícola mais intensa. A parceria também possibilita a troca de experiências entre os dois países, combinando o histórico de gestão hídrica acumulado por Osaka com soluções baseadas em processos naturais que vêm sendo estudadas em Bauru para reduzir a contaminação das águas subterrâneas.

“Para o uso sustentável dos recursos hídricos, é importante prevenir a escassez e a poluição por meio de uma gestão integrada da quantidade e da qualidade da água”, diz Shin-Ichi Onodera, da Universidade de Hiroshima e coordenador do projeto no lado japonês. “Para uma gestão abrangente dos recursos hídricos, é necessário controlar a carga de nitrogênio em diferentes usos do solo”. 

A pressão tende a crescer nas próximas décadas. O crescimento populacional e a expansão urbana aumentam a demanda por água, enquanto a produção agrícola depende do mesmo recurso para garantir alimentos. Em muitos casos, as duas atividades passam a exercer pressão sobre as mesmas fontes hídricas.

A comparação entre Brasil e Japão está relacionada à escala dos desafios observados pelos pesquisadores. “Osaka e São Paulo têm tamanho semelhante como megacidades”, diz. “A comparação entre as duas pode gerar resultados com impacto global”.

Estudos apontam que a demanda urbana global por água pode crescer cerca de 80% até 2050. Segundo os pesquisadores, cidade e agricultura costumam ser tratadas como sistemas separados. O planejamento urbano olha para o abastecimento da população, enquanto políticas agrícolas se concentram na produção. 

Entre os principais focos do Smart-Água está o nitrogênio, elemento essencial para a vida, mas que pode se transformar em problema ambiental quando aparece em excesso. Na agricultura, compostos nitrogenados estão presentes em fertilizantes. “O nitrato na água é um dos poluentes”, explica Onodera. “Ele vem principalmente de resíduos humanos em áreas urbanas e de resíduos agrícolas”.

O excesso de nitrogênio pode degradar a qualidade da água. Um desses processos é a eutrofização, crescimento excessivo de algas que altera o equilíbrio dos corpos hídricos. Alterações na qualidade da água comprometem usos para abastecimento e irrigação.

“Os ecossistemas têm grande potencial de absorção do nitrogênio”, diz Onodera. “Esse ciclo natural pode reduzir a necessidade de aplicação de fertilizantes químicos”.

Fertilizantes agrícolas reproduzem processos naturais. A diferença está na escala. “Fertilizantes são produzidos industrialmente e aplicados em grande quantidade nas áreas agrícolas”, diz Onodera. “Esse é um dos maiores processos artificiais de fornecimento de nitrogênio para o ambiente”. O problema não está na presença do nitrogênio. O risco aparece quando o volume introduzido ultrapassa a capacidade natural de absorção e transformação dos ecossistemas.


Transformar problema em recurso

O projeto discute a possibilidade de reaproveitar águas com alta concentração de nitrato. “O recurso não é adequado para consumo humano, mas pode ser utilizado para agricultura”, indica Onodera.

A proposta é reutilizar nutrientes presentes na água em processos produtivos, desde que análises locais indiquem segurança e viabilidade para esse uso. Determinadas regiões agrícolas utilizam grandes volumes de fertilizantes nitrogenados anualmente, o que aumenta a presença de nitrato em águas subterrâneas.

“Na região agrícola de Hiroshima, aplicamos cerca de 200 quilos de nitrogênio por hectare ao ano”, explica. “Isso representa um volume muito grande de fertilizantes e parte da água subterrânea acaba apresentando nitrato”. O alerta do pesquisador é de que isso não elimina a necessidade de controle ambiental, mas abre novas possibilidades de manejo.


Osaka vira alerta para cidades em crescimento

Em Osaka, o crescimento populacional acelerado contribui para a poluição de rios e áreas costeiras. Onodera relata que a implementação de infraestrutura de esgoto alterou esse cenário nos anos seguintes, mas também trouxe novos desafios. Parte dessa infraestrutura apresenta hoje sinais de desgaste, como vazamentos, rupturas e colapsos.

O Smart-Água prevê a elaboração de modelos para simular possíveis cenários futuros, que permitem avaliar como alterações climáticas, mudanças no uso do solo e crescimento urbano podem afetar rios e aquíferos. 

Entre as questões analisadas estão os efeitos da expansão agrícola e das mudanças na ocupação urbana, além de eventos climáticos extremos. Essas projeções não funcionam como previsões exatas, e sim como forma de identificar tendências e possíveis riscos.

“No Brasil, é importante determinar não apenas a concentração de nitrogênio por unidade de área, mas também o volume total de nitrogênio que impacta áreas costeiras e ecossistemas localizados a jusante”, diz. 

Ele explica que a combinação entre grandes cidades e extensas áreas agrícolas amplia a importância do caso brasileiro. “O volume total de nitrogênio pode ser enorme”, aponta. “A experiência brasileira pode contribuir significativamente em escala internacional”.


 
 
 

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FAPESP Processos 2020/15434-0 e 2022/00652-7, CNPq 423950/2021-5

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