Experimento avalia recarga de aquífero freático e o destino do nitrogênio em uma floresta urbana
- SACRE

- há 21 horas
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Estudo investiga se Solução baseada na Natureza consegue combinar recarga manejada e atenuação da contaminação por nitrogênio
Julia Picolo

Bauru (SP) obtém cerca de 75% de seu abastecimento dos aquíferos Bauru e Guarani; os outros 25% vêm da captação superficial no rio Batalha, condição sujeita a períodos de escassez e ainda agravada pelo fato de a cidade apresentar um dos piores índices de saneamento do estado de São Paulo, tratando apenas 3% do esgoto, alerta o pesquisador do SACRE Vinícius Rogel. “Na prática, estamos falando de mais de 97% do esgoto, cerca de 800 litros por segundo, sendo lançados diretamente nos rios e córregos da cidade, além dos vazamentos das redes coletoras. É uma carga massiva de esgoto, rica em nitrogênio, que alcança o rio e o aquífero”, explica Vinícius Rogel.
Rogel investigou uma Solução baseada na Natureza (SbN) que combina Filtração em Margem de Rio (Riverbank filtration) e Fitorremediação em uma floresta urbana, para avaliar processos biogeoquímicos e estimar a recarga. O estudo, realizado em Bauru, foi apresentado no XXIV Congresso Brasileiro de Águas Subterrâneas. O experimento-piloto foi instalado no Horto Florestal de Bauru com uma metodologia inovadora.
“A ideia inicial baseava-se em um serviço ecossistêmico clássico: aplicar nitrogênio na floresta, esperando que as plantas, as árvores e o próprio solo absorvessem e retivessem esse elemento para criar biomassa, como folhas e troncos. Mas, quando aplicamos essa concentração elevada na área experimental do Horto Florestal, provocamos um desequilíbrio deliberado para entender até onde o sistema aguentaria”, esclarece Rogel.
A irrigação produziu frentes de umedecimento que alcançaram 6 metros de profundidade, indicando que a água infiltrou todo o perfil do solo (zona não saturada – faixa entre a superfície e o lençol freático) e contribuiu para a recarga do aquífero.
O pesquisador não observou acúmulo de nitrogênio no solo nem nos tecidos das folhas, tampouco diferenças no diâmetro das árvores entre as parcelas irrigadas e as parcelas de controle. Os resultados indicam que, nas condições do experimento, o sistema solo-planta não reteve de forma significativa a carga de nitrogênio aplicada.
Se o nitrogênio não ficou retido no solo ou nas plantas, para onde ele foi? Essa questão levou os pesquisadores a investigar o que ocorria ao longo do percurso da água.
A análise indica que as frentes de umedecimento e a recarga restante encontraram condições favoráveis, à desnitrificação — processo microbiológico que transforma compostos nitrogenados e pode reduzir a presença de nitrato na água. Nesse experimento, a atenuação ocorreu principalmente no aquífero, e não no sistema floresta-solo.
Assim, o principal mecanismo de atenuação observado não foi a retenção do nitrogênio pela floresta, mas a capacidade do próprio aquífero de transformar parte dessa carga. Ao mesmo tempo, a irrigação aumentou o armazenamento de água no solo e a recarga local. Os resultados sugerem potencial para integrar florestas urbanas e estratégias de recarga manejada, mas também reforçam a necessidade de acompanhar a qualidade da água subterrânea e compreender os limites do processo antes de sua aplicação em maior escala.
“O impacto do projeto é sugerir que não dependemos apenas de soluções de engenharia tradicional. A própria natureza atua como aliada. O aquífero mostrou uma capacidade surpreendente de desencadear processos químicos e microbiológicos para reduzir a concentração do poluente por processos naturais”, conclui Rogel.

Dados e informações retirados da apresentação e resumo: A floresta filtra o nitrogênio ou o aquífero atenua? Uma solução baseada na natureza de fitorremediação in situ na recarga manejada em Bauru (SP).




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