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Microplásticos podem percorrer aquíferos e transportar contaminantes

  • Foto do escritor: SACRE
    SACRE
  • 3 de jun.
  • 3 min de leitura

Pesquisa do SACRE indica que o deslocamento de partículas depende mais do solo e das características do plástico do que da velocidade da água


Isabela Batistella


Imagem ilustrativa (Fonte: Acervo Canva)
Imagem ilustrativa (Fonte: Acervo Canva)

O risco dos microplásticos na água subterrânea não está apenas na presença dessas partículas nos aquíferos, mas também na capacidade de se deslocarem pela subsuperfície (subsolo) e carregarem outros contaminantes. Pesquisas recentes do Projeto SACRE| Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes têm ampliado o entendimento sobre a presença de microplásticos no subsolo urbano. Enquanto um dos estudos identificou essas partículas em profundidades de até 28 metros (matéria anterior), a pesquisa de Tamiris Lopez investigou como elas se deslocam na água subterrânea. O estudo analisou  fatores como porosidade e características do solo, além de propriedades das partículas que influenciam mais o deslocamento do que a velocidade da água.

“Entender como os microplásticos se deslocam é fundamental para avaliar o risco que representam aos aquíferos utilizados para abastecimento”, diz Lopez. Segundo ela, esse conhecimento permite prever o destino dessas partículas e estimar o tempo de transporte, o que ajuda a aprimorar estratégias de monitoramento e propor medidas eficientes de proteção.

A entrada de microplásticos em águas subterrâneas ocorre principalmente por atividades humanas, como despejo de efluentes sem tratamento, descarte inadequado de resíduos e vazamentos em sistemas de esgotamento sanitário.

Nos experimentos de laboratório, a pesquisadora utilizou colunas preenchidas com areia e solo arenoso para simular o comportamento dos microplásticos no subsolo. O objetivo foi observar até onde eles conseguiam avançar e quais fatores alteravam esse percurso. Os resultados mostraram cenários bastante diferentes: em alguns ensaios, as partículas avançaram apenas dois centímetros; em outros, foram encontradas ao longo de toda a coluna analisada. Já no solo arenoso utilizado em parte dos testes, não houve transporte significativo nas condições experimentais avaliadas.

Essas diferenças sugerem que o comportamento dos microplásticos não segue uma regra. “Os microplásticos, diferentemente de outros contaminantes, são insolúveis”, explica Lopez. Por isso, eles não se comportam como contaminantes dissolvidos, como nitrato ou metais, que acompanham o fluxo da água. Para os microplásticos, as interações físico-químicas com o meio poroso são mais relevantes.

Tamanho, formato, densidade, composição química e cargas elétricas presentes tanto nas partículas quanto no solo influenciam a retenção ou a mobilidade no subsolo. “As cargas presentes nessas partículas podem interagir com as cargas presentes no solo”, diz a pesquisadora, o que interfere no deslocamento e pode tanto facilitar quanto retardar deslocamentos.

A entrada desses poluentes nos aquíferos também está ligada a práticas comuns do cotidiano urbano, muitas vezes pouco associadas à qualidade da água subterrânea. “O ato de lavar uma camisa de poliéster ou de escovar os dentes lança uma enorme quantidade de partículas no esgoto”, alerta Tamiris. 

O mesmo acontece com garrafas PET descartadas incorretamente, que se fragmentam com o tempo sob a ação do sol e do atrito, além do desgaste de pneus no asfalto, que também libera partículas microplásticas. A pesquisadora lembra ainda que vazamentos em tubulações de esgoto e o despejo inadequado de efluentes agravam esse processo. “Trata-se de uma contaminação provocada diariamente por todos, devido ao uso indiscriminado do plástico”, diz.

Outro ponto de preocupação é que os microplásticos podem atuar como carreadores de contaminantes ainda mais tóxicos. “Os microplásticos, por si sós, podem não ser uma ameaça tão grande, até onde se sabe, quando comparados a outros contaminantes”, explica. “No entanto, estudos apontam que podem atuar como carreadores de outros contaminantes adsorvidos à sua superfície”.



 
 
 

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