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Complexidade urbana desafia a gestão da água no país

  • Foto do escritor: SACRE
    SACRE
  • 15 de jan.
  • 3 min de leitura

Pesquisas mostram limites de dados, piora da qualidade dos córregos e entraves para integrar políticas de água e saneamento


Isabela Batistella


Fonte: ABRHidro
Fonte: ABRHidro

O avanço científico na gestão das águas urbanas já permite identificar áreas vulneráveis, prever impactos e orientar políticas públicas. Mas cidades brasileiras continuam expostas a erros de diagnóstico, esgoto lançado em córregos e decisões tomadas com base em informações desatualizadas. Pesquisadores do Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes apresentaram, no XXVI Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos em Vitória (ES), organizado pela Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRHidro), novos diagnósticos sobre drenagem urbana, qualidade de água e integração entre políticas de água e saneamento. Suas investigações sugerem que o país possui tecnologia e método para reduzir esses problemas, mas os governos ainda precisam equacionar sua aplicação.

A fragilidade começa na base: os dados que orientam obras de drenagem e planejamento urbano. A pesquisadora Ana Pascucci apresentou uma rotina automatizada para organizar dados espaciais destinados à modelagem hidrológica, uma ferramenta para prever o comportamento da água em uma bacia. Para ela, o maior risco ocorre quando informações espaciais chegam incompletas ou defasadas. 

“O erro mais crítico não é apenas um valor errado, mas a representação distorcida da dinâmica do escoamento superficial”, diz. As representações destacadas por Pascucci são aquelas que analisam o fluxo da água da chuva sobre a superfície, especialmente em casos em que a quantidade de água excede a capacidade de infiltração do solo. Municípios projetam infraestrutura a partir de retratos antigos da cidade, nem sempre capazes de perceber o quanto a cidade ganhou áreas pavimentadas, além das pequenas mudanças no terreno que orientam o caminho da água.

Pascucci explica que essa deficiência pode levar ao superdimensionamento, quando se assume o pior cenário possível, ou ao subdimensionamento, quando dados antigos não evidenciam novas áreas impermeabilizadas. Essas distorções dificultam até mesmo a identificação dos pontos mais adequados para soluções baseadas na natureza. “Uma base de dados consolidada e constantemente atualizada facilitaria o reprocessamento da rotina e aproximaria o gestor da realidade”, indica.

A pesquisadora percebe que a falta de cadastros técnicos atualizados, especialmente de lotes e coberturas, afeta diretamente as análises de quanto o solo consegue absorver água, a velocidade com que ela escoa e o tamanho das enxurradas que podem se formar. A qualidade dos dados é o principal entrave para a execução de rotinas automatizadas em órgãos públicos. “O obstáculo é estrutural”, aponta. “As prefeituras nem sempre dispõem de bases abertas ou mecanismos para incorporar tecnologias produzidas pela universidade”.


Qualidade da água expõe impacto urbano

O pesquisador Enzo Guzzo verificou tendências ao longo de cinco anos de monitoramento de dados do córrego Água Comprida, em Bauru, e identificou que a água fica mais poluída no trecho mais abaixo do córrego.

Os resultados mostraram aumento de fosfato, séries de nitrogênio e sólidos dissolvidos, que indicam contaminação por esgoto doméstico lançado sem tratamento. Guzzo ressalta que os municípios precisam investir  em infraestrutura de coleta e tratamento, além do  combate às ligações clandestinas. “As áreas já estão urbanizadas, o serviço de tratamento precisa funcionar de forma adequada”, diz. “Quando os indicadores apresentam diferença tão clara entre origem e destino do fluxo, o sinal é de esgoto lançado sem tratamento”. Guzzo alerta para o risco de  crescimento descontrolado de algas e plantas aquáticas. 

Já baixo nível de oxigênio na água pressiona ecossistemas, piora o aspecto visual dos córregos e afeta a fauna aquática. Para Guzzo, o conjunto dos sinais aponta urgência: sem respostas imediatas, a degradação tende a se aprofundar nos próximos ciclos de monitoramento.


Políticas que não se encontram

Mesmo com ferramentas capazes de gerar diagnósticos precisos e rápidos, a estrutura institucional não acompanha a necessidade de integração entre saneamento e recursos hídricos. Para a pesquisadora do SACRE e coordenadora da ABRHidro Graziele Ruas, o problema se expressa na fragmentação dos governos e na falta de continuidade das políticas. Ela analisa que o cenário atual impede que avanços técnicos se transformem em práticas permanentes. “A gestão fica segmentada em caixas que não conversam entre si”, diz. “Na ponta, isso aparece em serviços que não atendem a população e em rios cada vez mais pressionados”.

Para a pesquisadora, a ampliação da infraestrutura precisa caminhar com instrumentos já previstos em lei, como enquadramento de corpos hídricos e outorga. Segurança jurídica, equilíbrio regulatório e base tarifária clara são condições mínimas para uma política integrada. “Sem isso, não há previsibilidade para investimentos e garantia de justiça tarifária”.


 
 
 

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FAPESP Processos 2020/15434-0 e 2022/00652-7, CNPq 423950/2021-5

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