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Urbanização compromete a recarga de aquíferos e amplia riscos de inundação nas cidades

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    SACRE
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Impermeabilização do solo altera o ciclo da água e agrava problemas históricos em áreas urbanas


Isabela Batistella


Estudos desenvolvidos no âmbito do SACRE indicam que áreas com maior cobertura vegetal apresentam mais resiliência hídrica (Fonte: Isabela Batistella)
Estudos desenvolvidos no âmbito do SACRE indicam que áreas com maior cobertura vegetal apresentam mais resiliência hídrica (Fonte: Isabela Batistella)

As pancadas de chuva típicas do verão voltam a atingir o interior paulista em  fevereiro, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Defesa Civil Estadual. Embora os volumes estejam dentro da normalidade, a intensidade intermediária a forte dos eventos reacende uma preocupação recorrente da população de Bauru (SP): os alagamentos e enxurradas que historicamente afetam a cidade durante períodos chuvosos.

Para o pesquisador do SACRE Vinicius Rogel, essa apreensão não é infundada. O problema não está apenas na quantidade de chuva, mas na forma como a cidade responde a ela. “A urbanização aumenta a impermeabilização do solo, reduz a infiltração e a recarga das águas subterrâneas e acelera o escoamento superficial”, explica. “Esse escoamento rápido é uma das principais causas das inundações urbanas”.

Segundo ele, o que tem se observado é a ocorrência de grandes volumes de chuva típicos do verão concentrados em períodos cada vez mais curtos, que, ao atingirem superfícies urbanas lisas e impermeáveis, favorecem um escoamento superficial intenso e torrencial.

Os impactos da urbanização, no entanto, não se limitam à superfície. As águas superficiais e subterrâneas fazem parte de um mesmo sistema, interligado pelo ciclo hidrológico. Alterações no uso e ocupação do solo interferem diretamente nessa dinâmica. Os aquíferos dependem da infiltração da água da chuva para sua recarga; processo que ocorre de forma relativamente rápida nos reservatórios mais rasos, mas que pode levar séculos em aquíferos profundos, chamados fósseis. 

“Nem toda água de chuva vira recarga”, ressalta Rogel. “Apenas uma fração infiltra e alcança os aquíferos, e esse percentual varia conforme o tipo de solo, a ocupação urbana e a presença ou ausência de vegetação”.

Estudos desenvolvidos no âmbito do SACRE indicam que áreas com maior cobertura vegetal apresentam mais resiliência hídrica, tanto em termos de abastecimento quanto de proteção contra a contaminação das águas subterrâneas por poluentes como o nitrogênio, frequentemente associado a vazamentos da rede de esgoto. Os experimentos do SACRE conduzidos no Horto Florestal de Bauru sugerem que a ampliação de áreas verdes pode contribuir para atenuar inundações e melhorar a qualidade da água.

Na área de estudo do projeto, a mata ciliar e as zonas de várzea próximas ao Córrego Água Comprida — afluente do Rio Bauru que atravessa o Horto — atuam como áreas de amortecimento diante dos grandes volumes de chuva de verão. Essas regiões funcionam como uma espécie de “infraestrutura verde”, semelhante ao conceito de cidades-esponja, que utiliza diferentes soluções naturais para armazenar, infiltrar e filtrar a água da chuva, reduzindo o escoamento rápido e seus impactos.

Além de influenciar o abastecimento por meio de poços, o nível dos aquíferos também é fundamental para a manutenção dos rios. A depender das condições, um curso d’água pode receber ou doar água ao aquífero ao longo de seu trajeto. Quando o nível subterrâneo diminui, a vazão de base — parcela do fluxo do rio sustentada pelas águas subterrâneas — pode ser interrompida, levando à redução ou até ao desaparecimento do rio em períodos mais secos. 

O Projeto SACRE atua em diferentes frentes para enfrentar esses dilemas, combinando análises técnicas, estudos de soluções hídricas e subsídios científicos para a gestão de recursos hídricos. Nesse contexto, o planejamento urbano surge como um elemento central para a segurança hídrica das cidades. “Costumamos tratar as águas superficiais e subterrâneas como recursos separados, mas elas estão conectadas hidraulicamente. Quando se altera um, o outro é inevitavelmente afetado. E essa interferência já é profunda”, diz Rogel.

Áreas verdes desempenham um papel estratégico nesse equilíbrio. “É o funcionamento básico do ciclo hidrológico: parte da água infiltra no solo, outra evapora ou é absorvida pela vegetação, e uma fração segue em profundidade, recarregando os aquíferos”. A urbanização intensa, ao substituir áreas naturais por superfícies impermeáveis, rompe esse ciclo. “Não é só quanto chove, mas como a água se comporta. O escoamento ficou mais rápido, a infiltração diminuiu, a recarga quase não acontece e a vegetação perde sua principal fonte de água”, resume. 

A pressão sobre os aquíferos também cresce em função dos múltiplos usos da água, como abastecimento urbano, agropecuária e indústria, que competem pelo recurso. Apesar de extensos e renováveis, os aquíferos não são infinitos. A situação se agrava pela falta de informações precisas sobre o número de poços em operação, especialmente os irregulares.

Os recursos superficiais contam com métricas para monitorar quanto pode ser extraído sem prejudicar o rio. Já para os subterrâneos a resposta não é tão simples, apesar da existência de cálculos estimativos. “O período de recarga de um aquífero como o Guarani é enorme”, alerta Rogel. 



 
 
 

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FAPESP Processos 2020/15434-0 e 2022/00652-7, CNPq 423950/2021-5

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