top of page
Buscar

Desafios da lacuna informacional sobre água subterrânea

  • Foto do escritor: SACRE
    SACRE
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Apesar de financiamentos crescentes para o recurso, conceitos importantes sobre aquíferos ainda são subvalorizados


Isabela Batistella


Com o avanço da crise hídrica e das mudanças climáticas, as águas subterrâneas passaram a desempenhar papel de destaque. Apesar disso, o recurso permanece pouco compreendido. Em 2022, a UNESCO destacou as águas subterrâneas como solução para a crise hídrica, ressaltando a necessidade de investimento em conhecimento, infraestrutura e capacitação profissional para a área da hidrogeologia. No Brasil, há espaço para investimento em águas subterrâneas. Estudo organizado pelo coordenador do SACRE Ricardo Hirata, para o Trata Brasil, destaca esse potencial devido ao grande número de poços existentes para diversos usos (cerca de 2,5 milhões), além da dependência total (36%) ou parcial (16%) de grande parte dos municípios brasileiros das águas subterrâneas.  

Com o intuito de auxiliar nessa questão, o Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes tem trabalhado no desenvolvimento de um Sistema de Suporte à Decisão (SSD). A iniciativa busca facilitar o processo de gestão dos recursos hídricos, com a integração de dados hidrológicos, geológicos e de uso do solo para orientar gestores e tomadores de decisão, com informações técnicas acessíveis para facilitar a compreensão de detalhes técnicos, sociais e ambientais. 

“O armazenamento e fluxo de águas subterrâneas ainda são pouco compreendidos, naturalmente porque ocorrem abaixo do solo e não vemos acontecer”, diz o pesquisador Vinicius Boico, um dos responsáveis pelo desenvolvimento do sistema. “Sem visibilidade e conhecimento geral sobre o tema, a população fica desamparada para compreender o uso, a disponibilidade e os problemas relacionados às águas subterrâneas, assim como para pressionar por mudanças na gestão dos aquíferos”. Para ele, o desafio começa desde a educação básica, ainda insuficiente na abordagem do componente subterrâneo. 

A confusão não é apenas didática e interfere em decisões que envolvem investimento público, definição de outorgas e proteção de mananciais. Um aquífero não é um reservatório vazio sob a terra ou um ‘rio subterrâneo’, não é infinito, apesar do grande volume de água. É uma formação geológica capaz de armazenar e transmitir água por entre pequenos poros entre as rochas e o solo. Nem todos funcionam do mesmo modo. Segundo o pesquisador, entender essas características é essencial para uma gestão mais responsável das águas subterrâneas.

Diferenças relevantes quanto à profundidade, volume armazenado, pressão, qualidade da água e velocidade de recarga determinam regras distintas de uso, proteção e remediação de aquíferos. “Não é possível estabelecer uma regra comum para todos”, diz Boico. “Alguns possibilitam grandes volumes de captação, outros fornecem menos água, mas podem ser explotados por poços rasos.” 

No município de Bauru, o SACRE trabalha com dois sistemas. O Sistema Aquífero Bauru é livre (também chamado de freático), o que significa que é mais raso e vulnerável à contaminação. Sua recarga é mais rápida, ao mesmo tempo em que está mais suscetível às contaminações. O Sistema Aquífero Guarani é confinado, ou seja, mais profundo e estratégico pelo grande volume e qualidade da água. 


Os desafios eminentes

No caso do aquífero livre, o projeto investiga a presença de contaminantes como o nitrato, elemento derivado do nitrogênio comum no esgoto doméstico, microplásticos, fármacos, hormônios e contaminantes emergentes. A proximidade com a superfície facilita a recarga, mas também amplia o risco de contaminação por vazamentos na rede de esgoto, atividades industriais e até interação com rios contaminados. O SACRE analisa os processos de recarga natural, que ocorrem por infiltração, e também a possibilidade de gerenciar a recarga de forma artificial. “Essa técnica oferece uma oportunidade de renovação dos volumes armazenados ao longo de poucas décadas”, explica Boico. 

Já para o sistema confinado, a preocupação recai sobre o rebaixamento dos níveis de água. Poços mal distribuídos podem interferir entre si e elevar custos de bombeamento. “O aquífero confinado [como o Guarani] deve considerar a localização e interferência entre poços, assim como as vazões e o regime de bombeamento”, diz Boico. A recarga para essas formações geológicas ocorre de forma lateral e pode levar centenas ou milhares de anos. 

A diferença entre aquíferos sedimentares e fraturados também é relevante para a tomada de decisão. Sistemas mais homogêneos permitem maior previsibilidade na produtividade de poços. Em aquíferos fraturados, a vazão pode variar significativamente em curtas distâncias, o que altera riscos e estratégias de monitoramento. 



 
 
 

Comentários


FAPESP Processos 2020/15434-0 e 2022/00652-7, CNPq 423950/2021-5

Logo do projeto
bottom of page