top of page
Buscar

Vazamentos de esgoto podem afetar aquíferos por décadas

  • Foto do escritor: SACRE
    SACRE
  • 31 de mar.
  • 3 min de leitura

Estudo do SACRE indica que contaminação é reversível, mas depende de decisões imediatas sobre saneamento e uso da água


Isabela Batistella

Trecho do Córrego Água Comprida (Bauru/SP) que recebe esgoto doméstico (Fonte: Isabela Batistella)
Trecho do Córrego Água Comprida (Bauru/SP) que recebe esgoto doméstico (Fonte: Isabela Batistella)

Tese de doutorado realizada no âmbito do Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes aponta que vazamentos de esgoto se somam ao longo do tempo, fator responsável por grandes massas de contaminação. O trabalho, do pesquisador Carlos Gil, investiga como a contaminação por nitrato se espalha no subsolo urbano e quais caminhos podem levar à recuperação desses reservatórios. O estudo se concentrou no Sistema Aquífero Bauru, com análises nas cidades de Bauru e Urânia, cidade 340km a noroeste de Bauru, e utilizou simulações para projetar cenários futuros de qualidade da água. “A contaminação hoje em Bauru é fruto não só dos vazamentos atuais, mas também do legado de cargas passadas, seja por vazamentos de esgoto contínuos ou sistemas anteriores, como as fossas”, explica o pesquisador.

Os resultados indicam que o problema não se limita à ausência de saneamento, mas também a falhas na infraestrutura existente. Mesmo em áreas com rede de esgoto, vazamentos persistentes permitem que contaminantes atinjam o lençol freático e se acumulem ao longo do tempo. “Diante de um contaminante muito persistente e móvel, as águas do aquífero seguirão sob risco de piora de qualidade”, alerta Gil. O impacto recai sobretudo sobre o uso complementar da água subterrânea, comum na extração de poços privados. 

A contaminação não se concentra em um único ponto. Ela forma o que os pesquisadores chamam de ‘pluma de nitrato’, uma mancha invisível que se desloca lentamente pelo subsolo. Segundo o pesquisador, o caráter difuso e subterrâneo do problema dificulta o monitoramento e a resposta do poder público. “É muito difícil identificar esses pontos de vazamento e quantificar o quanto de nitrogênio atinge o aquífero”, diz. 


Decisões atuais com repercussões futuras

As simulações indicam que a evolução da contaminação depende diretamente das taxas de vazamento de esgoto. Em cenários com manutenção de perdas, a pluma tende a se manter ou avançar. Já a redução desses vazamentos pode levar à recuperação gradual da água subterrânea. Em alguns casos, os modelos apontam que a melhoria da infraestrutura sanitária poderia reduzir a contaminação a níveis seguros em cerca de duas décadas. A interrupção das fontes de poluição aceleraria esse processo. 

“O tipo de material da rede e a idade da infraestrutura influenciam diretamente”, diz Gil. “Redes mais antigas tendem a apresentar mais falhas e precisam de atenção prioritária”. A pesquisa também revela que o passado urbano deixa marcas duradouras. Regiões com ocupação mais antiga e saneamento precário concentram maiores níveis de contaminação, o que expõe um efeito de longo prazo da desigualdade urbana sobre a qualidade da água. 


Uso de poços demanda controle 

Outro ponto central da tese é o papel dos poços no controle da contaminação. O bombeamento pode ajudar a reduzir a concentração de nitrato ao promover a mistura entre águas mais rasas e mais profundas, o que dilui os poluentes. “De maneira controlada, isso pode ser benéfico para reduzir as concentrações futuras”, explica Gil, que alerta para como o uso intensivo pode afetar rios e córregos, especialmente em períodos de seca, ao reduzir o fluxo de base que os alimenta.

O estudo apresenta a necessidade de controle das vazões, planejamento na localização de novos poços e cuidados para evitar a conexão entre camadas contaminadas e reservatórios mais profundos. No caso de Bauru, o Sistema Aquífero Bauru aparece como uma alternativa estratégica para complementar o abastecimento, hoje dividido entre águas subterrâneas e captação superficial. A pesquisa aponta que o uso ampliado pode reduzir a pressão sobre outras fontes, mas exige monitoramento contínuo para evitar impactos ambientais.

O pesquisador destaca possibilidades de uso da água subterrânea contaminada em atividades menos sensíveis, como irrigação de áreas verdes e usos urbanos não potáveis, o que pode aliviar a demanda sobre fontes mais protegidas. “A combinação entre melhoria do saneamento e gestão dos poços pode levar à recuperação do aquífero”, diz. “Mas isso depende de decisões tomadas agora”. 




 
 
 

Comentários


FAPESP Processos 2020/15434-0 e 2022/00652-7, CNPq 423950/2021-5

Logo do projeto
bottom of page