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Pesquisa do SACRE indica que o Rio Bauru recebe contaminantes via aquífero durante seca

  • Foto do escritor: SACRE
    SACRE
  • 31 de mar.
  • 3 min de leitura

Estudo apresentado no Canadá aponta limite de filtros naturais e risco à segurança hídrica em áreas urbanas


Isabela Batistella


Trecho do Rio Bauru onde o SACRE realiza pesquisas (Fonte: Isabela Batistella)
Trecho do Rio Bauru onde o SACRE realiza pesquisas (Fonte: Isabela Batistella)

A contaminação de aquíferos é um dos principais desafios à segurança hídrica. O Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes conduz pesquisas para compreender e propor formas de enfrentar o fenômeno, abrangendo desde a criação de tecnologias até recomendações à gestão pública. Uma pesquisa do projeto, recém-apresentada na Universidade de Waterloo, no Canadá, indica que o Rio Bauru passa a receber carga de esgoto transportada pelo aquífero durante o período de estiagem, quando a baixa vazão reduz a diluição dos poluentes e agrava a qualidade da água. 

Apresentado em um simpósio canadense, o estudo liderado pela pesquisadora Fernanda Barreto investiga como a urbanização compromete o funcionamento das zonas ripárias, áreas naturais de transição entre o ambiente terrestre e os cursos de água — ou seja, áreas de vegetação e solo nas margens de rios e córregos. A pesquisadora explica que, em condições equilibradas, filtram contaminantes antes de chegarem aos rios.

Os resultados mostram que esse sistema natural apresenta limitações. Em Bauru, a pressão urbana e a carga contínua de esgoto no subsolo ultrapassam a capacidade de filtragem dessas áreas, conceito que a pesquisadora define como “leaky filter”, ou filtro com vazamento. “Na seca, o fluxo do rio é mantido quase exclusivamente pelo fluxo de base”, diz Barreto, ao se referir ao aquífero que alimenta os rios. “Por ser mais raso, o Aquífero Bauru é muito vulnerável sob a área urbana, principalmente onde as redes de saneamento são mais antigas. Como essa porção está contaminada, o rio recebe uma carga de poluentes, sem volume de chuva suficiente para diluir essa concentração”. 

Sem chuvas significativas, o rio passa a depender da água subterrânea que aflora no leito. Esse processo, comum em períodos de estiagem, torna-se crítico quando o aquífero está contaminado por infiltrações de esgoto. O resultado é uma carga elevada de elementos como nitrogênio, que chega ao rio de forma contínua e invisível.

Barreto explica que essa contaminação ocorre mesmo sem lançamentos diretos aparentes. Vazamentos em redes de saneamento, sobretudo as mais antigas, permitem que o esgoto infiltre no solo e alcance o aquífero raso. “É uma contaminação invisível, mas constante”, diz. 

Zonas ripárias, que funcionam como uma espécie de “rins” da paisagem, perdem eficiência nesse cenário. Essas áreas dependem de condições ambientais preservadas para sustentar processos biológicos capazes de remover poluentes. Em ambientes urbanos degradados, a capacidade diminui. “O volume de esgoto que vaza para o subsolo é tão alto que ultrapassa a capacidade biológica de processamento dessas zonas”, diz a pesquisadora. Por conta da degradação ou até ausência dessas vegetações na margem dos rios, Barreto explica que as zonas perdem a estrutura necessária para sustentar seu papel de filtro de contaminantes, o que torna o rio vulnerável à contaminação direta. 

Os dados do estudo reforçam esse diagnóstico. Amostras indicam aumento expressivo de nitrato (um dos principais indicadores de contaminação por esgoto) e presença de microrganismos patogênicos, especialmente em períodos secos, quando a capacidade de diluição do rio é mínima. Em alguns casos, os níveis observados nas águas subterrâneas superam parâmetros de qualidade para consumo humano.

A pesquisa também identificou diferenças entre os sistemas aquíferos da região. Enquanto o Aquífero Bauru, mais raso, apresenta alta vulnerabilidade à contaminação urbana, o Aquífero Guarani permanece protegido por camadas geológicas que dificultam a infiltração de poluentes. Esse contraste evidencia o papel do aquífero raso como principal via de transporte de contaminantes até o rio. “Ele funciona como uma via direta do esgoto oxidado até o curso d’água”, explica Barreto.

Os resultados despertam alerta para gestores públicos e planejamento urbano. O Aquífero Bauru é utilizado para abastecimento por meio de poços (diferente do abastecimento público, que capta do Rio Batalha e do Aquífero Guarani). Esse uso particular da água rasa amplia o risco associado à degradação da qualidade da água. “A segurança hídrica depende tanto da infraestrutura de saneamento quanto da preservação dessas áreas naturais”, afirma Barreto. “Soluções baseadas na natureza são essenciais, mas não são suficientes sozinhas”. 

A pesquisadora defende uma abordagem integrada, que combine a manutenção rigorosa das redes de esgoto com restauração funcional das zonas ripárias. A proposta inclui a recuperação dessas áreas como espaços urbanos ativos, com vegetação, solo saudável e uso público controlado.

A experiência internacional também contribui para o debate. Segundo Barreto, a troca com instituições como a Universidade de Waterloo permite avançar em soluções que integrem urbanismo e gestão da água. “Não se trata só de importar tecnologia”, diz. “Também mostramos como lidar com pressão urbana em regiões tropicais e contribuímos para definir caminhos de adaptação”. 



 
 
 

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FAPESP Processos 2020/15434-0 e 2022/00652-7, CNPq 423950/2021-5

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