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Troca nipo-brasileira de conhecimentos sobre gestão das águas

  • Foto do escritor: SACRE
    SACRE
  • 14 de jan.
  • 4 min de leitura

Projeto SACRE conecta pesquisadores brasileiros e japoneses para comparar trajetórias, proteger aquíferos e qualificar decisões públicas


Isabela Batistella


Reunião entre os pesquisadores brasileiros e japoneses, em Bauru/SP (Fonte: Isabela Batistella)
Reunião entre os pesquisadores brasileiros e japoneses, em Bauru/SP (Fonte: Isabela Batistella)

Ao reunir trajetórias históricas, dados científicos e experiências de campo, o Projeto SACRE | Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes aposta que entender o passado de outros países pode ajudar o Brasil a evitar crises futuras. O projeto tem explorado a cooperação científica entre Brasil e Japão para discutir decisões que moldam o futuro da água nas cidades. À frente desse diálogo estão os pesquisadores Ricardo Hirata, coordenador do SACRE, e Shin-Ichi Onodera, líder do Centro Brasileiro da Universidade de Hiroshima, com atuação em estudos hidrológicos comparativos entre os dois países. Para ele, a história japonesa mostra que ignorar os sinais da degradação da água cobra um preço alto. “O Japão só reagiu depois de crises muito severas. A ciência teve um papel central para mostrar que o custo de não agir era maior do que o de mudar”, diz.

A fala resume um percurso marcado por episódios extremos de poluição hídrica ao longo do século 20, quando a industrialização acelerada comprometeu rios, baías e águas subterrâneas. Informações institucionais do governo japonês, divulgadas pela Embaixada do Japão no Brasil, indicam que esses episódios levaram à criação de leis ambientais rígidas, ao fortalecimento do controle sobre efluentes industriais e à definição de padrões nacionais de qualidade da água. A resposta transformou a gestão ambiental do país e ampliou o acesso ao saneamento nas grandes cidades.

Segundo Onodera, o aprendizado influencia não apenas a legislação, mas também a forma como ciência e política passaram a caminhar juntas. “Não se trata só de tecnologia. É sobre usar dados para orientar decisões e assumir responsabilidades quando a água começa a dar sinais de colapso”, diz. Para ele, essa discussão é especialmente relevante no Brasil, onde muitos impactos permanecem invisíveis por ocorrerem no subsolo.

No SACRE, a comparação entre os dois países ajuda a revelar essas camadas ocultas. Enquanto grandes cidades japonesas se desenvolveram próximas à costa, concentrando e tornando visíveis os impactos da poluição, muitas cidades brasileiras estão localizadas em áreas de recarga de aquíferos. Nesses casos, a contaminação da água subterrânea pode avançar silenciosamente por anos antes de se tornar perceptível.

Essa diferença aparece nas decisões sobre o  saneamento. “No Japão, hoje, a maior parte das grandes cidades conta com sistemas de esgoto amplamente distribuídos. Isso muda a relação da população com os rios e aquíferos”, diz Onodera. “No Brasil, a cobertura ainda é desigual, o que cria enormes desafios para proteger a água a longo prazo”.

A professora Mitsuyo Saito, também da Universidade de Hiroshima, reforça esse contraste ao tratar da gestão ambiental urbana. Pesquisadora com mais de uma década de experiência em recursos hídricos no Japão, em outros países asiáticos e no Brasil, ela aponta que a infraestrutura define o tipo de impacto ambiental enfrentado pelas cidades. “Uma diferença importante entre Japão e Brasil é o sistema de gestão ambiental. No Japão, a maior parte das grandes cidades está conectada a sistemas de esgoto, enquanto no Brasil a cobertura é menor”, diz.

Para Saito, essa lacuna afeta a qualidade de rios, águas costeiras e águas subterrâneas. “Quando o esgoto não é tratado, os nutrientes e contaminantes não desaparecem. Eles se acumulam nos sistemas aquáticos e geram impactos que vão além do consumo humano”, diz. Seus estudos se concentram no transporte de nutrientes da terra para o mar e nos efeitos da descarga de água subterrânea em ecossistemas costeiros.

A experiência japonesa mostra que esses impactos podem se prolongar por décadas. Outros dados divulgados pela Embaixada do Japão no Brasil indicam que episódios de contaminação da água levaram o país a reconhecer oficialmente doenças ambientais associadas à poluição hídrica, o que resultou em indenizações às vítimas e em mudanças profundas no modelo de gestão ambiental. Para os pesquisadores do SACRE, esse histórico ajuda a reforçar a importância de decisões preventivas.

É nesse ponto que entra a pesquisa brasileira. Representando o SACRE na Universidade de Hiroshima e orientado por Onodera e Saito, o pesquisador Vinícius Rogel investiga processos químicos da água subterrânea e sua relação com o clima. Para ele, “a água é um recurso coletivo, e enfrentá-la como desafio global depende da cooperação científica internacional”. 

Em estudos realizados em Bauru, no interior de São Paulo, Rogel identificou concentrações elevadas de metano em águas subterrâneas, inclusive em áreas florestais preservadas. O dado amplia o debate sobre o papel dos aquíferos nas mudanças climáticas. “O metano ajuda a revelar processos invisíveis na água subterrânea”, diz. “Ele mostra que gestão hídrica e debate climático precisam caminhar juntos”.

Segundo Rogel, o gás funciona como um sinalizador de reações químicas ligadas ao carbono e ao nitrogênio, além da interação entre rios e aquíferos. Embora não seja considerado um contaminante para o consumo humano, o metano em altas concentrações pode indicar riscos em ambientes confinados e apontar transformações no equilíbrio do subsolo.

Para Onodera, pesquisas desse tipo exemplificam o valor da cooperação internacional. “Quando conectamos dados do Brasil e do Japão, conseguimos enxergar padrões que não aparecem em estudos isolados. A ciência precisa dessa escala para antecipar problemas e apoiar decisões públicas”.

A colaboração entre os países é fortalecida por programas de internacionalização da pesquisa, como o Sprint (São Paulo Researchers in International Collaboration), da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que apoia parcerias iniciais e estimula o intercâmbio de pesquisadores. Para o SACRE, essa rede amplia a capacidade de analisar sistemas hídricos complexos e de transformar conhecimento científico em subsídios para políticas públicas.

Na avaliação de Saito, o maior desafio é tornar essas informações acessíveis para além da academia. “Dados científicos só fazem diferença quando chegam à sociedade e aos gestores”, diz. “A gestão da água precisa ser baseada em evidências e comunicação clara”.

 
 
 

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FAPESP Processos 2020/15434-0 e 2022/00652-7, CNPq 423950/2021-5

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